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UMA PARTITURA JORNALÍSTICA, CÓDIGOS AUTISTAS Agosto 11, 2008

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Hauptmann

 

Uma partitura, para ser transformada em música, precisa ser decodificada. Ela não é a música. É uma representação dela. A música só acontece como ação estética, quando alguém que entende a partitura, a executa. Só então se torna apreensível por todos, mesmo aqueles que não sabem nada de música.

Um fato não é uma notícia até ser codificado. Notícia é só uma representação. O acontecimento, portanto, só é apreendido por meio de versões. O jornalismo não decodifica o fato, mas o codifica. Isso precisa ser exposto à opinião pública para que ela decida gostar ou não. Exatamente como no caso da música.

Não é preciso entender de música para se gostar ou não dela, quando executada, decodificada. No jornalismo é preciso explicar ao público que as notícias ali apresentadas são meras representações, versões codificadas segundo as marcas ideológicas dos indivíduos e da empresa jornalística.

Sfez diz que em pesquisas de comunicação não se trata mais de descobrir como comunicar melhor, mas sim saber como chegamos nesse estado de coisas. Compreende-se mal porque a política tradicional de comunicação fracassou em razão de um abuso de linguagem. Não é à toa que ele cunhou o termo tautismo, uma mistura de tautologia com uma boa dose de autoritarismo e um elevado nível de autismo.

No jornalismo há muita repetição, unilinearidade excessiva e o pouco diálogo existente ocorre apenas no próprio mundo da comunicação profissional. Reside aqui uma inquietante constatação sobre o jornalismo. Na música, o código na partitura é lido por profissionais que decodificam aquilo e fazem a execução pública. Assim nasce a música para uma platéia que, recebendo-a como produto acabado, o reconhece como tal e decide se gosta ou não.

Essa fenomenal liberdade de decidir se gosta ou não daquilo não é dada pelo jornalismo, que insiste em mostrar versões como se fossem os fatos. É como se estivesse compondo partituras. Ou seja, só entende o que está ali quem é do ramo. O grande público, que não sabe ler partitura, não consegue enxergar a música que o faz dançar.

 

POR UM OUTRO VIÉS

 

A fotografia é uma arte. Não há técnica que substitua o olhar do artista. Antes do click do botão disparador, olhos treinados já capturaram a imagem.

O momento é congelado e pode ser apropriado e apresentado ao público. É o fragmento extraído de um todo que não é dado a conhecer ao operador da captura, seja ele o fotógrafo ou o observador da fotografia.

Aquele fragmento do todo é apresentado numa moldura que, na prática, é uma espécie de aparato ideológico, uma vez que conduz o observador a ver por determinado viés. A moldura ressalta o corte e o ângulo de visão e garante o foco.

Mouillaud e Rosset, noutros termos, concordaram na questão do real inapreensível. Mouillaud diz que no momento do acontecimento, em si, não há nada para ser visto, não existe nada. Rosset diz que o acontecimento que nos chega – seja lá por qual meio for – é construído, uma vez que, conclui, o duplo (uma espécie de acontecimento materializado em conhecimento) é criado e o real, concreto, positivo, é desconhecido.

Para eles, o que conhecemos como realidade, na verdade, não existe. Sim, afinal, a tal realidade que temos são versões que nos chegaram. Logo, recortes construídos de um todo – esse sim real, porém, impossível de se apropriar.

Mais uma referência cruzada nesse longo raciocínio proposto: Nietszche dizia que o acaso não existe. É como se o acaso dele fosse o real para Mouillaud e Rosset, ou seja, o tal acaso, para Nietszhe é uma construção. Perceba que Mouillaud e Rosset afirmaram que o acontecimento que nos chega é uma versão, algo construído, e não o fato em si, o real, inalcançável.

Exatamente por não acreditar no acaso, Nietszche classificava as artes como a mais sublime das construções. Lógico, para ele, as artes não se negavam como construções. Ao contrário, dizia ele, dos cientistas e do próprio jornalismo, que divulga versões como se fossem os fatos em si. Como se existisse um duplo do real.

A fotografia é uma arte, repito. Parafraseando Nietszche, a fotografia é sublime ao não se apresentar como o todo. Seu aspecto fracional, construído pelo olhar do artista, é absolutamente evidente, franco.

Gostaria de dizer o mesmo da matéria jornalística.

Uma matéria publicada no jornal é apresentada, sempre, como se fosse o registro do acontecimento em si. O jornalismo erra quando não assume que o que apresenta ao público é apenas uma versão, construída, de um fato que ele não conheceu na integralidade.

O jornalista, ideologicamente comprometido com a prática jornalística, defende sua versão como verdade. Crê nela. É como se ele fosse o operador da rede de informações. Na verdade, ele mesmo, na maioria dos casos, é manipulado pelos verdadeiros operadores da rede, aqueles transfigurados como fontes.

No rio das informações, eles conseguem ficar a montante do fato, uma criação. A jusante estão os que se acham operadores. Inclusive os jornalistas. Talvez por isso tamanha crença nas versões como se fossem o todo, concreto, verdadeiro, real.

Os operadores retêm as informações e as usam conforme lhes convém. Dessa forma conseguem manipular as relações de espaço/tempo. Como operam a montante e a jusante do fato construído, eles controlam o foco e o recorte que será dado jornalisticamente ao fato.

Lembra da história da fotografia? Pois é. Sem a restrição de luz, não há imagem.

Os dominantes da cadeia das informações conseguem então usar a moldura da imprensa transfigurados como fontes, que retêm as informações e as usam conforme lhes convém. Como procedem à jusante e à montante, conseguem criar o acontecimento, limitando espaço, tempo e foco no recorte proposto. Assim como na fotografia não há imagem sem a restrição da luz, os dominantes usam a moldura da imprensa para restringir a luz conforme conveniência e assim se assegurarem de qual imagem será revelada, que cena será vista, que discurso será apropriado.

 

AINDA UM PREÂMBULO

 

As teorias, sejam elas quais forem, são reducionismos. Elas permitem uma visão fragmentada de um todo. Uma fotografia, um recorte, uma construção. Continuo falando das mesmas coisas.

No campo das ciências humanas as teorias procuram trazer à luz da compreensão fatos observáveis. Controlando a luz, controla-se a imagem. Usando-se a moldura, dirige-se o olhar de quem observa.

É pelas teorias que são dadas explicações sobre um fato e, em muitos casos, permite-se, inclusive, antecipar, ou pelo menos imaginar, algumas conseqüências futuras advindas de tais fatos.

Em comunicação não há uma teoria mais ampla. Não bastasse a essência das próprias teorias que tendem ao reducionismo, a comunicação tem uma capilaridade que não permitiria uma teoria de tal amplitude.

A comunicação não é um tema interdisciplinar, aquele que pega um pouco de cada uma das outras disciplinas. É transdisciplinar, pois passa um pouco dela para todas as demais ciências.

A comunicação tem um “que” de onipresença. Mas não se admite aqui a arrogância de afirmar que a comunicação vai fazer de alguém um bom professor ou um bom empresário. Mas sem dúvida alguma, um bom professor, um bom cientista vão ser tanto melhor quanto melhor dominarem a comunicação.

Complexa e cheia de sutilezas, atalhos, labirintos teóricos, a comunicação não é vista como um todo. O que é comunicação?

Comunicação não é vista como uma ciência completa porque ainda não foi totalmente dissecada, desconstruída e reconstruída, de forma tal que cada processo seja compreendido e cada peça tenha seus encaixes definidos.

 

MAIS RECORTES TEÓRICOS

 

Não desista ainda da leitura. Logo poderemos nos atrever a alguma amarração, num rompante de atrevimento que precisará ser perdoado pelos que tem mais alcance intelectual e biblioteca mais usada.

Retomando o caminho dos recortes teóricos, vamos observar outras possibilidades de cruzamentos teóricos e conceituais. Procura-se aqui justaposição que permita propor, se não uma solução, pelo menos um debate sobre uma possibilidade à prática jornalística.

Marx conceituou o dilema da alienação, segundo o qual o homem, dentro de sua dinâmica de produção, sofre de uma espécie de perda ou ausência de controle sobre suas próprias criações.

Daí que podemos dizer que o jornalista se aliena. Está envolvido na dinâmica de produção, na práxis jornalística, e se dissocia da consciência de que está relatando versões.

McLuhan, ao falar sobre a indústria de cultura de massa, coloca os meios de comunicação como destaque. Afirma que os meios se transformaram numa espécie de extensão do homem. Mas faz um alerta: o homem cria processos que influenciam sua própria natureza. Mais ou menos assim: o homem cria a ferramenta que, por sua vez, muda o homem.

Podemos então inferir que o jornalista não se comunica mais.

Paulo Freire fala do mutismo. E explica que o mutismo não é ausência de resposta, mas uma resposta sem teor crítico. Jornalismo não é muito dado a despir-se em público.

No rio das informações, o jornalismo virou um manipulado. É oprimido.

Bordieu critica capacidade de manipulação dos meios. Mas diz que jornalista, como manipulador, é manipulado também.

Marques de Melo diz que há uma cultura do silêncio, em que o oprimido não tem voz própria, fala pela voz do opressor.

E dá-lhe jornalismo defendendo as versões como se fossem a realidade apreendida.

Como Freire, Bordieu vê no indivíduo a única alternativa de por fim ao mutismo. Pelo diálogo. Bordieu vê solução do dilema na rebeldia do jornalista em ir contra o estado de coisas.

O diálogo, para Freire, gera um pensar crítico.

Bem, a solução do problema da incomunicação no meio está, então, em novas práticas jornalísticas.

Hall é um divisor de águas nessas questões teóricas aqui colocadas em tela. Antes dele, os meios de comunicação de massa eram vistos, estudados, como se fossem externos à sociedade. Manipulavam pelas notícias.

Hall desconstruiu essa linearidade e concluiu que a mensagem não tem a transmissão tão simples assim. Não basta intenção de comunicar.

Gramsci trouxe para um contexto político a noção de que os MCM eram estruturas exteriores à sociedade e a manipulava com as notícias. Sugere que os MCM são uma espécie de pedagogia de massa. Nesse caso, perceba-se que massa é no sentido de massa crítica encontrado em Marx e não no sentido de massa manobrável encontrado no senso comum.

Por isso Gramsci definiu jornalistas como intelectuais orgânicos.

Para ele, a massa fala de si mesma e se reconhece pelo jornalista que dá voz à massa. Ele não retrata a sociedade, ensinava Gramsci. O jornalista é porta-voz da massa.

Assim, encontramos em Gramsci a definição segundo a qual nos permite inferir que o jornalismo orquestra vozes.

Numa orquestra, quem conduz as inúmeras vozes é o maestro, que está para o conjunto assim como está o jornalista para a sociedade. E esse registro não é para mostrar importância deste ou daquele. Mas apenas para enfatizar a responsabilidade que têm em cada movimento.

 

CONTEXTO PARA QUESTÕES BASILARES

 

Reside nesse amplo contexto exposto até aqui, questões basilares para a práxis jornalística. Já que não gosta de despir-se em público – posição até compreensível – que o faça pelo menos internamente, sem pudores. Estamos, nós jornalistas, executando músicas ou compondo partituras? Vamos passar a assumir as versões ou continuaremos a defender liturgicamente as versões como se fossem os fatos? Vamos continuar mudos ou começaremos a buscar respostas críticas? Vamos pensar um pouco mais sobre quais vozes estamos orquestrando? Vamos restringir luz para construir uma imagem e não admitir que a imagem é um recorte do todo? Quais são as ideologias que nos movem? Para quem, afinal, escrevemos? Se assumir a condição de ser construído, o jornalismo se aproxima mais da arte, se torna, portanto, mais humano. E melhor, pode se desconstruir para ver do que é feito, como é feito, para que é feito e poder se reconstruir, mais consciente e forte. Tudo, para conseguir mais efeito.

 

Ética, moral e etiqueta no jornalismo Julho 6, 2007

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Hauptmann

Assunto para lá de pesado, a ética não parece figurar entre as preferências na lista dos profissionais de comunicação. Nos corredores da faculdade já vi universitários e até professores empenhados em debates sobre essa ou aquela teoria. Mas a questão ética não é tão popular quanto deveria. E deveria. Até para que, de repente, ocorressem algumas desmitificações necessárias. Assim, quem sabe, ao debater ética a categoria deixe de chegar tão freqüentemente ao lugar-comum das etiquetas, perfumarias e congêneres. 

Vamos lá, um pouco mais nessa direção.Numa conduta mais cartesiana, seria até fácil diferenciar ética, moral e etiqueta. Porém, numa análise mais detida e sistêmica, logo se percebe a dificuldade em conceituar especialmente a ética. Arriscando-se ainda mais ao aprofundamento da análise diante de uma profissão tão singular, como o jornalismo e o contexto em que está inserido, descobre-se diante de um problema complexo. 

Se já é difícil singularizar um conceito de ética e sua diferenciação de moral e etiqueta quando se trata da esfera do indivíduo, imagine o que é pensar ética num contexto em que há o indivíduo, o jornalista, e as empresas de comunicação. Afinal, parafraseando Nilson Lage, “jornalistas não podem ser éticos sozinhos”. Segundo ele, também as empresas jornalísticas devem agir eticamente evitando “usar” o profissional ao invés de colocá-lo a serviço da comunidade. E não adianta simplesmente relatar um sem-número de conceitos e definições dos diversos autores que arriscaram-se nessa seara. Quando o contexto é o de imprensa, não há como tratar ética sem envolver igualmente o jornalista, os patrões, as fontes, o público, os políticos. 

Mesmo recorrendo a um dicionário, uma leitura pouco mais atenta já remete à dificuldade de conceituar, de forma passiva de discussão, ética, moral e até mesmo etiqueta. É preciso cuidado para os conceitos não confundirem-se na hora de serem colocados em prática.  Segundo o Larousse Cultural, a ética é o ramo da Filosofia que aborda os fundamentos da moral. É conjunto de regras que orientam a conduta em uma atividade profissional. A palavra vem do grego Ethike, que significa moral. Logo no primeiro conceito, talvez uma origem da dificuldade em discernir moral e ética. No mesmo dicionário, moral, que vem do latim moralis, diz respeito às regras de conduta que regem uma sociedade; Conjunto de princípios e valores que regem as normas sociais. Ora, pelo conceito anterior, conjunto de regras que orientam a conduta não foi chamado de ética? 

O mesmo Larousse define etiqueta, do francês étiquette, cerimonial usado nas cortes ou nas residências dos chefes de Estado; Formas cerimoniosas usadas entre particulares; regra, estilo.  Os códigos de ética, como é possível inferir dos escritos do pesquisador Eugênio Bucci, não passam de regras de etiqueta, perfumaria. Maior dificuldade é definir e por em prática uma ética da informação pela complexidade da mídia e às condições não menos complexas de uma autêntica discussão sobre os procedimentos dos veículos de comunicação, envolvendo ao mesmo tempo os jornalistas, diretores dos veículos e o público, ou seja, os principais personagens da comunicação, aos quais acrescentam-se outros, como políticos e pesquisadores sobre mídia .  

Observando recortes conceituais que vão de Aristóteles, em seus livros da obra Ética a Nicômaco, a Eugênio Bucci, Vázquez, Clovis Rossi e Cláudio Abramo, entre outros, percebe-se uma espécie de consenso segundo o qual as discussões sobre ética tendem a uma confusão com a etiqueta ou limitam-se a uma tentativa de construir uma ética meramente normativa, ameaçando efetivamente a liberdade de imprensa. Eugênio Bucci, ao analisar a prática de imprensa diferencia ética e etiqueta para fazer uma crítica à histórica resistência dos jornalistas em debaterem, publicamente, seus comportamentos éticos. Segundo esse autor, uma das formas de resistir ao debate é distorcer a essência, falando sobre normas que tratam sobre a forma e postura dos profissionais. Ou seja, em vez de discutir ética, discutem etiquetas, como por exemplo, como os profissionais devem se comportar, se apresentar em público, como devem tratar as informações e o público. 

Outra digressão comum nos debates sobre ética é a tendência de levar a discussão para o “lugar comum” das generalidades estabelecidas nos códigos de ética, em especial, o do jornalismo. Para Bucci, ética diferencia o bom jornalismo do vil e dada a sua importância, deveria ser debatida aberta e francamente. Na obra citada, Bucci defende a discussão da ética dos veículos de comunicação. Ainda que ele não exima os jornalistas das falhas éticas na imprensa, afirma que os maiores problemas éticos são criados além das redações, ou seja, na cúpula da empresa de comunicação. 

Veja o que escreve Eugênio Bucci:

“A discussão ética só produz resultados quando acontece sobre uma base de compromisso. Se uma empresa de comunicação não se submete na prática às exigências de busca da verdade e do equilíbrio, o esforço de diálogo vira proselitismo vazio. E inútil. No máximo, um colóquio de etiqueta. Aliás, é assim que acontece com freqüência. Debatem-se as boas maneiras dos repórteres, se eles tratam bem o entrevistado, se se apresentam corretamente como jornalistas, se ouvem os dois ou mais lados do tema que estão cobrindo, se invadem a privacidade da atriz que depois decide processar a revista – que por sua vez só vive de explorar detalhes da intimidade de pessoas famosas -, e assim por diante. Tudo isso é importante, claro, mas é pouco diante das faltas éticas que vitimam a sociedade brasileira. Essas até contam com a colaboração ativa de jornalistas que tomam parte na confecção das imposturas, mas em geral são cometidas por empresas e não pode redatores; são faltas institucionais e não desvios pessoais”. 

Ética, para Bucci, não são as posturas nem as generalidades superficiais dos códigos de ética. É a essência do bom jornalismo ao moldar o caráter dos profissionais, de forma a levá-los sempre a atender a função pública e social de divulgar tudo que é de interesse da sociedade, de forma correta. Se Aristóteles deixava entender que não existe uma ética coletiva e Cláudio Abramo definia ética como “a ética do cidadão”, Eugênio Bucci ressalta que é para o cidadão que a imprensa deve existir – e só para ele. Jornais, revistas, emissoras de rádio e TV, enfim, os veículos de comunicação que se dedicam ao jornalismo, assim como os sites informativos na internet, nada disso deve existir com a simples finalidade de gerar empregos, fortunas e erguer os impérios de mídia; deve existir porque os cidadãos têm o direito à informação.

Aliás, direito esse garantido no mundo democrático desde a criação da Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 1948. Em seu artigo 19, o direito à liberdade de opinião e expressão, inclui a liberdade de “procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras”. Esse mesmo direito do cidadão está assegurado no Brasil no artigo quinto da Constituição Federal. É também verdade que a atividade jornalística se converteu num mercado, mas esse mercado é conseqüência, e não fundamento, da razão de ser da imprensa. Por silogismo, se o fundamento da imprensa é o direito à informação assegurado ao cidadão, dele deve resultar a ética que precisa reger os jornalistas e as empresas de comunicação e também os vínculos que ambos têm com suas fontes, com o poder, com o público consumidor, com anunciantes, patrocinadores e investidores. 

Nos poucos debates travados abertamente, a palavra ética, quando aparece, surge mais comumente em sua condição de adjetivo do que em sua dimensão substantiva. No dia-a-dia, quando alguém pronuncia essa expressão, geralmente está se referindo à qualidade de “honesto” de alguém, a um atributo moral de uma prática. Segundo Bucci, raramente o termo vem designar um sistema de valores coletivamente compartilhados que sirvam de parâmetro para as ações humanas. Para ele, ética virou acessório, não uma base.Uma alternativa para a solução da problemática da ética na imprensa seria a classe, jornalistas e donos dos veículos de comunicação, quebrarem os paradigmas e discutirem, mais aberta e freqüentemente, a ética com os cidadãos que, em última análise, é quem sustenta a imprensa. E os jornalistas não podem jamais abrir mão dessa relação franca com o cidadão, relação essa que é sedimentada pela confiança gerada de uma prática ética. Afinal, o bem mais precioso na vida de um jornalista não é seu emprego, e sim sua credibilidade. 

Bucci afirma que se a técnica restringe-se aos especialistas, a ética pertence ao cidadão. E para ele, no jornalismo, técnica e ética não se separam:“…pode-se dizer que as exigências éticas do jornalismo aprimoram sua qualidade técnica. O professor de ética jornalística Carlos Soria, da Universidade de Navarra, na Espanha, costuma sintetizar em suas conferências esse princípio com a seguinte fórmula: ‘Ética é igual a qualidade de informação’. Se a informação tem qualidade, ela necessariamente foi apurada e editada com ética. Se a ética foi atropelada, a informação resultará tecnicamente débil. Essa noção não falha nunca. E vem se tornando um consenso entre as muitas correntes que pensam a respeito do jornalismo .Prova dessa afirmação de Bucci é o manual de redação e estilo do jornal O Globo, onde se lê: “As exigências éticas não prejudicam a prática do jornalismo; ao contrário, elevam a qualidade da informação”. 

O professor Adolfo Sánchez Vazques faz uma contribuição bastante significativa ao abordar a ética de uma forma mais facilmente perceptível para as pessoas. Ele estimula a compreensão da ética como algo real, concreto. A ética, para Vasquez, é uma ciência que estuda o comportamento moral do homem em sociedade. Estuda, porém, não com a intenção de normatizar, de legislar, mas de compreender, interpretar e elaborar conceitos e teorias a respeito. 

Ética e moral são aparentadas. Mas têm suas diferenças. A ética é mais generalista, é teórico-ética. A moral é prática, uma vez que o homem age moralmente, pautado pelo conjunto de normas morais que apreende desde a primeira idade, ou seja, das normas que intimamente aceita como válidas e, com base nelas, toma suas decisões e age.Na discussão sobre ética no jornalismo, não podem ficar de fora expressões como vontade e liberdade, indissociáveis da responsabilidade, segundo a visão de Vázques.  

O homem é responsável por seus atos e decisões na medida em que teve liberdade de escolha sobre mais de uma alternativa e o fez pela expressão de sua vontade. O indivíduo, diante de um problema concreto, prático-moral, não pode querer encontrar na ética uma proposta específica para a solução. Isso porque a ética é afeta às questões mais gerais, teóricas. A ética poderá, no máximo, mostrar, em geral, o que é um comportamento pautado por normas ou em que consiste o fim – o bom – visado pelo comportamento moral, do qual faz parte o procedimento do indivíduo concreto ou o de todos. “O problema do que fazer em cada situação concreta é um problema prático-moral e não teórico-ético”. Logo, não é um código de ética que vai resolver os problemas de ordem ética do jornalismo. No máximo o código conterá uma ética que vai dar orientações gerais.

Ao estudar o comportamento moral do homem, a ética utiliza uma metodologia que considera seu histórico cultural. Só assim, analisando cientificamente sua história, consegue, como ciência, compreender suas razões, questões objetivas e subjetivas para, então, construir teorias a respeito. Se de um lado é impossível negar a confusão com os conceitos de ética, moral e até de etiqueta nos debates sobre ética na imprensa, de outro, como consolo, parece não restar quaisquer sombras de dúvidas de que a ética no jornalismo não deve ser assunto exclusivo de estudiosos da comunicação ou de jornalistas e de veículos de comunicação.

O tema, por impactar diretamente a um público muito maior, precisa ser discutido e observado por estudantes de jornalismo, professores, leitores, telespectadores, ouvintes, anunciantes, políticos, enfim, por todo e qualquer cidadão. Se mesmo a formação acadêmica de jornalismo, por exemplo, se completa nas empresas, nas redações, enfim, no mercado, longe das universidades, o mesmo se pode dizer da aquisição conceitual e dos hábitos éticos diários. Ou seja, a ética de jornalistas, donos de jornais, anunciantes, fontes, consumidores e investidores será melhorada, evoluída, à medida que tornar-se prática de todos os momentos, estejam os protagonistas longe da vista de curiosos ou durante uma apresentação pública.

Logo, tais conjecturas permitem inferir que os códigos de ética não resolvem a problemática para os profissionais de comunicação. Para Bucci, pelo exemplo e pelas orientações expressas que dão, os profissionais mais experientes e éticos, podem atuar na formação de seus colegas e subordinados – e para isso não precisam de códigos escritos. Os valores, os princípios e as condutas do jornalismo se sedimentam mais pelos costumes do que pelas normas explícitas.

Por essa ótica, é fácil concordar com o pesquisador Eugênio Bucci, que diz que para a educação profissional, um código de ética pronto e fechado não adianta muito. “Um código tem a vantagem de por o preto no branco, isto é, de sacramentar os princípios que regem as tomadas de decisão. Um iniciante que seja apresentado a ele não tem mais a prerrogativa de dizer que o ignora”. Porém, só jornalistas, colegas e chefes, fazendo da ética letras vivas diárias, podem consolidar a formação ética dos profissionais e a construção de uma imprensa mais ética. 

Jornalista, estrangeiro onde quer que esteja! Junho 22, 2007

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 Hauptmann 

Max Weber, enciclopédico, dialogou com muitos temas. Alguns parecem ter habitado mais freqüentemente suas preocupações, como o poder, a saber, a política e o capitalismo. Mesmo correndo o risco de um silogismo simplista, vejamos: o poder do demagogo em conduzir foi e é determinante para o político e para o capitalista. Se o jornalista revelado por Weber era um demagogo por excelência, é essa a classe que se colocou a serviço dos interesses dessas categorias de dominadores, interdependentes. Então, cabe a pergunta: o jornalista deve viver o poder ou dele depender?Demagogo, para Weber, era uma classificação que em nada lembra o conteúdo pejorativo que têm essa expressão nos dias atuais. Era como um dom, uma habilidade. O demagogo, para ele, era o que podia conduzir o povo. Daí que ele afirmou que os jornalistas, como os advogados e os artistas, eram notáveis representantes da demagogia.O político e o capitalista, por outro lado, também precisam conduzir o povo afim de que alcancem os objetivos todos que, ao final, se resumem em um só: o poder. Então, não deve ser à toa que políticos e capitalistas, desde os primórdios imemoriais, se cerquem de tantos advogados e…jornalistas! É pela habilidade desses profissionais que se constróem as lideranças do político e do capitalista.Viver para a política, ou dela, são as duas formas de viver política, segundo Weber. Quem vive da política, explora a atividade e obtém vantagens, riquezas mesmo. Já quem vive para a política, a transforma. Mas, se se dedica integralmente à atividade, deve ter outras fontes de manter-se econômica e financeiramente. Ou seja, é rico!Vendo essas duas posições, de fora, nem uma, nem outra, parecem ideais para o bem comum, ao interesse da coletividade. Mas acontecem e é assim que o poder se estabelece. Nos dois casos a ação é para manter o estado de coisas como querem os mandatários.E o jornalista, com seu talento de demagogo, tem se colocado a serviço da legitimação do poder. Se o jornalista vive do poder, o explora, se enriquece. Se, por outro lado, vive para o poder, explora a sociedade, usurpa suas funções. E também enriquece. E, nos dois casos, a sociedade empobrece.Como o jornalista participa da atuação de todos os demagogos, acaba por perder sua identidade original. Ao perpassar a política, o capitalismo, enfim, o poder, tem sua identidade marcada. Já não se reconhece mais e nem é reconhecido. Exatamente por isso Weber escreveu que o jornalista, sem uma classificação social precisa, é colocado numa classe – como se fosse um paria – em que é julgado e pré-julgado, em função de seus representantes mais indignos. Como, então, convencer a sociedade de que o trabalho jornalístico não é subqualificado intelectualmente?Tirar o jornalismo do descrédito é fazer com que o jornalista não se veja mais como poder, mas como um profissional que conduz o povo ao espírito crítico suficiente para legitimar uma política mais justa à coletividade.Resgatar o crédito do jornalismo requer reconhecer que, estando perto do poder quase o tempo todo, o jornalista é muito mais vítima de tentações. E é fraco o suficiente para sucumbir diante delas. Assim como é fazendo perguntas que encontra respostas, reconhecendo e falando de seus problemas tende a encontrar alguma solução.Perguntei, no início, se o jornalista deve viver o poder ou dele depender. Bem, se poder vem da política e do capitalismo – não só deles, mas especialmente deles – recorro a outro conceito de Weber. Sobre como se faz política: se esforçando para participar do poder ou nele influir. No jornalismo é preciso saber para que e se esforçar mais, muito mais para, ao menos, saber o que é. Jornalista, como povo, não é poder. E, como próximo e conivente do poder, não é povo. Enfim, é estrangeiro onde quer que esteja.  

Esforço x resultado em comunicação Junho 14, 2007

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Hauptmann 

Se de um lado, a comunicação praticada hoje nas empresas é acidental, a solução comum para esse problema, oferecida pelos profissionais da área, é omissa, para não dizer amadora mesmo.

De um lado temos o empresário contratante que não consegue enxergar além dos produtos comunicacionais. Ele chega para a agência e diz que quer uma campanha na TV tal, chega para a empresa de assessoria e diz que quer um jornalzinho interno. Ele é quem tem a caneta na mão, é dono do negócio. Ele analisa as circunstâncias e toma decisões. E na área de comunicação, não é diferente.

De outro lado, temos o profissional de comunicação que normalmente não se vê como um consultor, um estrategista, um executivo de comunicação. Os profissionais da área se vêem e agem mais como tarefeiros, verdadeiros operários da comunicação. Se o contratante quer isso, tome!

O empresário, na verdade, tenta resolver um problema para o qual não foi treinado nem para identificar, muito menos para resolver. Ele conjetura sobre o problema, imagina a solução e cria a saída. Contrata alguém ou alguma empresa da área e faz a encomenda de um produto.

Tanto para um, quanto para outro, o resultado medido, quando medido, é o esforço. Vou me explicar melhor: O empresário recebe em mãos o produto encomendado. Ele faz críticas ou elogios ao conteúdo, à programação visual. E tem isso como resultado.

O contratado, por sua vez, tem como resultado a nota faturada. O empresário queria fazer um jornalzinho interno, escolheu ele para a tarefa, que foi cumprida direitinho e a nota emitida.

O contratante não resolveu o problema de comunicação – provavelmente ele sequer identificou corretamente o problema que tinha – e o contratado fez o trabalho mas não garantiu o cliente. Se tivesse ido além da tarefa encomendada, teria oferecido resultados que fariam daquele empresário um cliente satisfeito e fiel. Daquele tipo de cliente que diz que comunicação não é gasto, é investimento.

Traduzindo em miúdos: o Mercado não sabe usar a comunicação de uma forma estratégica e orientada para resultados porque os profissionais da área ainda não se descobriram como empreendedores do meio e nem educaram o mercado.

Se uma empresa tem um problema de baixo nível de qualificação da mão-de-obra empregada, a realização de cursos ao longo do ano não pode ser vista como resultado. A promoção dos cursos de qualificação é apenas esforço para se buscar a melhoria. Resultado, mesmo, é a melhoria que o curso trouxe para os funcionários.

Em comunicação, resultado não pode ser confundido com esforço. E produto de comunicação, como letters, boletins, intranet, murais, revistas, programas de rádio ou campanhas em TV, folderes, out-doors, não pode ser confundido com resultado. Com os produtos, nesse caso, só é possível medir o esforço e os investimentos em comunicação. Resultado, mesmo, é o que eles provocaram na empresa no sentido de resolver os problemas de comunicação existentes. Mas aí já precisamos, também, conceituar exatamente o que é problema. Aí quem sabe, o mercado pára de perder tempo e dinheiro atacando conseqüências como se fossem causas e de medir esforços como se isso fosse resultado. Mas, eis aqui um tema para outros artigos.

Tudo isso para lembrar: comunicação não é o que a gente fala, mas o que nossos interlocutores entendem…

Quando criadores e criaturas se reinventam… Junho 6, 2007

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Hauptmann

A cada inovação tecnológica, o homem reinventa suas relações com o mundo, criando novas dimensões ou modificando as já existentes.  Ao criar novas tecnologias o homem reinventa o mundo e é, ele próprio, reinventado também pelo novo mundo que criou.

Mundo e homem seguem assim surpreendendo-se mutuamente, reencantando-se um pelo outro. Não é o caso, ainda, de afirmar, por exemplo, que aquela figura mítica tenha se cansado de comer os próprios filhos para evitar que eles a comessem num futuro certo e tenha reinventado os filhos.

O homem continua sendo o animal de sempre, limitado ao mesmo tempo aos papéis de predador e presa, de opressor e oprimido, condutor e passageiro, autor e ator no teatro da vida real.

Assim como a incoerência e o paradoxo parecem fazer parte do DNA humano, nada parece mais democrático, na prática, do que as novas tecnologias. Inventadas pelo homem, elas reinventaram ele. Construídas pelos capitalistas, pelos dominantes, viraram ferramentas para seus críticos, às minorias, para os dominados, que também as usam contra a dominação.

Ao usar as inovações tecnológicas para reinventar seus métodos e processos produtivos, o modelo capitalista em si, os homens também modificaram o mercado. Ao criar novas demandas e empurrar o homem ao consumo, também permitiram o uso das novas tecnologias para denunciar o consumismo, os desmandos da busca predatória pelos lucros. Criaram também o início do consumo consciente.

O homem, o mundo, suas relações, ética, moral, vida. Tudo isso perpassado pelas novas tecnologias e pelas inovações que elas implicam. Criatura e criador se encontrando o tempo todo. Às vezes num novo namoro, noutras, em verdadeiras trombadas. Um caso de amor e ódio à primeira vista, vividos simultaneamente com a intensidade avassaladora de uma paixão, a um só tempo.

Encantar significa seduzir, arrebatar. É tomar-se de encantos; maravilhar-se. Se as novas tecnologias permitiram o encantamento do mundo, agora fica a torcida para que o mundo, modificado pelas inovações tecnológicas, seja capaz de reencantar o homem.

Quando as novas tecnologias se encontram com o capitalismo ocorre uma liberação de forças de proporções globais, multidimensionais. A reação desse encontro ultrapassa o espaço, o tempo e, às vezes, parece ultrapassar mesmo a lógica e a razão.

Ora, afinal, é a partir daí que um indivíduo pode, por exemplo, fazer contato real, on line, sem cabos ou rede física, com um mundo infinito, virtual.

As novas tecnologias, que seduzem e desafiam o homem exatamente pelo fato de prestarem-se a outras utilizações além daquelas inicialmente previstas. Intensificaram o capitalismo. Métodos e processos de produção, os conceitos de economia de escala, ganharam o mundo. Isso resultou, também, numa multiplicação dos seus efeitos colaterais: desmatamento, poluição, alterações climáticas.

Na prática, o grande encantamento das novas tecnologias é a possibilidade de acesso que elas trazem a quase todos, no mundo inteiro. É claro que não estão disponíveis para absolutamente todos. Mas certamente, as novas tecnologias estão entre as coisas que são oferecidas ao maior número possível de pessoas. Absolutamente democráticas, práticas, transformadoras e transformáveis.

O encantamento e o reencantamento do mundo e do homem ocorrem pelas inovações tecnológicas. Elas estão tão presentes na história, no espaço e no tempo do homem que já fica difícil dizer quem é o criador e quem é a criatura.  

 

Hello world! Junho 6, 2007

Posted by diletanteando in Uncategorized.
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